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Instituto Rio Branco 2018

Instituto Rio Branco 2016

Diplomata - Espanhol e Francês

Questão 1

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
“Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagem
 
de La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,
 
com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo
 
curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um
5
diplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas desse
 
subcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,
 
só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.
 
Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta do
 
Transiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra
10
as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,
 
descrever ao seu modo animais e homens era a missão do
 
viajante algo entediado.
 
A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...
 
Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,
15
quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de
 
culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências de
 
tempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagem
 
humana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de
 
exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível.
20
Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto de
 
saber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos
 
mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivos
 
do mundo, da China aos Estados Unidos da América, da
 
Alemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,
25
consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição de
 
Les Pâques à New York —, crescera definitivamente, no ano
 
seguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite
 
Jehanne de France, para não falarmos de outros textos que
 
publica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecer
30
também algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas
 
mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.
 
A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de público
 
e de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a
 
moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda.
35
É depois da publicação da Anthologie que o
 
compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final
 
da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé de
 
tema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud fora
 
adido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa
40
cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missão
 
diplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que não
 
desejava interromper a colaboração intelectual que ambos
 
mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão a
 
trabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integração
45
dramática entre música e teatro declamado. Para Darius
 
Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidental
 
para a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descoberta
 
da música popular brasileira — o maxixe, o choro, o
 
tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos de
50
ritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovem
 
Villa-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma
 
revelação —, que começava a encarar a possibilidade de
 
utilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por sua
 
vez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do
55
Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf sur
 
le Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temas
 
sul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,
 
entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de Zé
 
Boiadêro.
60
Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro
 
intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.
 
Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, o
 
compositor percebeu o interesse que a experiência de um
 
mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deveras
65
anônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mau
 
humor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do
 
Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,
 
Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para a
 
América do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois
70
no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.
 
La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,
 
de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano
 
seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,
 
Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,
75
vapor que batia bandeira francesa.
Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto I, julgue os itens subsequentes.
O trecho “paisagem deveras anônima” (L. 64 e 65), que apresenta expressão atribuída a Gobineau, faz referência a um lugar novo e ainda desconhecido, tendo sentido similar ao do trecho “um mundo inteiramente inédito” (L. 63 e 64).
Questão 2

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
“Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagem
 
de La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,
 
com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo
 
curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um
5
diplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas desse
 
subcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,
 
só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.
 
Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta do
 
Transiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra
10
as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,
 
descrever ao seu modo animais e homens era a missão do
 
viajante algo entediado.
 
A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...
 
Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,
15
quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de
 
culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências de
 
tempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagem
 
humana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de
 
exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível.
20
Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto de
 
saber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos
 
mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivos
 
do mundo, da China aos Estados Unidos da América, da
 
Alemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,
25
consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição de
 
Les Pâques à New York —, crescera definitivamente, no ano
 
seguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite
 
Jehanne de France, para não falarmos de outros textos que
 
publica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecer
30
também algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas
 
mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.
 
A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de público
 
e de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a
 
moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda.
35
É depois da publicação da Anthologie que o
 
compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final
 
da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé de
 
tema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud fora
 
adido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa
40
cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missão
 
diplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que não
 
desejava interromper a colaboração intelectual que ambos
 
mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão a
 
trabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integração
45
dramática entre música e teatro declamado. Para Darius
 
Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidental
 
para a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descoberta
 
da música popular brasileira — o maxixe, o choro, o
 
tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos de
50
ritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovem
 
Villa-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma
 
revelação —, que começava a encarar a possibilidade de
 
utilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por sua
 
vez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do
55
Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf sur
 
le Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temas
 
sul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,
 
entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de Zé
 
Boiadêro.
60
Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro
 
intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.
 
Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, o
 
compositor percebeu o interesse que a experiência de um
 
mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deveras
65
anônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mau
 
humor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do
 
Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,
 
Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para a
 
América do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois
70
no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.
 
La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,
 
de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano
 
seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,
 
Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,
75
vapor que batia bandeira francesa.
Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto I, julgue os itens subsequentes.
Segundo o autor do texto, Blaise Cendrars foi instigado a viajar ao Brasil devido à existência, no país, de ritmos musicais exóticos, entre os quais o maxixe.
Questão 3

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
“Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagem
 
de La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,
 
com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo
 
curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um
5
diplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas desse
 
subcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,
 
só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.
 
Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta do
 
Transiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra
10
as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,
 
descrever ao seu modo animais e homens era a missão do
 
viajante algo entediado.
 
A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...
 
Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,
15
quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de
 
culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências de
 
tempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagem
 
humana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de
 
exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível.
20
Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto de
 
saber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos
 
mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivos
 
do mundo, da China aos Estados Unidos da América, da
 
Alemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,
25
consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição de
 
Les Pâques à New York —, crescera definitivamente, no ano
 
seguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite
 
Jehanne de France, para não falarmos de outros textos que
 
publica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecer
30
também algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas
 
mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.
 
A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de público
 
e de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a
 
moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda.
35
É depois da publicação da Anthologie que o
 
compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final
 
da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé de
 
tema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud fora
 
adido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa
40
cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missão
 
diplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que não
 
desejava interromper a colaboração intelectual que ambos
 
mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão a
 
trabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integração
45
dramática entre música e teatro declamado. Para Darius
 
Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidental
 
para a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descoberta
 
da música popular brasileira — o maxixe, o choro, o
 
tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos de
50
ritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovem
 
Villa-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma
 
revelação —, que começava a encarar a possibilidade de
 
utilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por sua
 
vez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do
55
Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf sur
 
le Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temas
 
sul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,
 
entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de Zé
 
Boiadêro.
60
Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro
 
intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.
 
Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, o
 
compositor percebeu o interesse que a experiência de um
 
mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deveras
65
anônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mau
 
humor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do
 
Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,
 
Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para a
 
América do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois
70
no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.
 
La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,
 
de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano
 
seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,
 
Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,
75
vapor que batia bandeira francesa.
Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto I, julgue os itens subsequentes.
Darius Milhaud, compositor que exerceu funções diplomáticas no Rio de Janeiro, inspirou-se na música popular carioca para compor o Boeuf sur le Toît.
Questão 4

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
“Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagem
 
de La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,
 
com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo
 
curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um
5
diplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas desse
 
subcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,
 
só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.
 
Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta do
 
Transiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra
10
as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,
 
descrever ao seu modo animais e homens era a missão do
 
viajante algo entediado.
 
A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...
 
Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,
15
quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de
 
culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências de
 
tempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagem
 
humana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de
 
exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível.
20
Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto de
 
saber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos
 
mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivos
 
do mundo, da China aos Estados Unidos da América, da
 
Alemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,
25
consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição de
 
Les Pâques à New York —, crescera definitivamente, no ano
 
seguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite
 
Jehanne de France, para não falarmos de outros textos que
 
publica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecer
30
também algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas
 
mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.
 
A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de público
 
e de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a
 
moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda.
35
É depois da publicação da Anthologie que o
 
compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final
 
da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé de
 
tema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud fora
 
adido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa
40
cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missão
 
diplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que não
 
desejava interromper a colaboração intelectual que ambos
 
mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão a
 
trabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integração
45
dramática entre música e teatro declamado. Para Darius
 
Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidental
 
para a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descoberta
 
da música popular brasileira — o maxixe, o choro, o
 
tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos de
50
ritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovem
 
Villa-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma
 
revelação —, que começava a encarar a possibilidade de
 
utilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por sua
 
vez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do
55
Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf sur
 
le Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temas
 
sul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,
 
entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de Zé
 
Boiadêro.
60
Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro
 
intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.
 
Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, o
 
compositor percebeu o interesse que a experiência de um
 
mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deveras
65
anônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mau
 
humor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do
 
Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,
 
Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para a
 
América do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois
70
no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.
 
La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,
 
de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano
 
seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,
 
Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,
75
vapor que batia bandeira francesa.
Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto I, julgue os itens subsequentes.
Porquanto, conforme o texto, Blaise Cendrars era “Viajante sem bagagem e sem descanso” (L.8) e exibia “o irônico desprendimento do turista ocasional” (L.73), é correto concluir que o “poeta do Transiberiano” (L. 8 e 9) viajava ao acaso, sem que o motivasse maior curiosidade pelos lugares a que se dirigia.
Questão 5

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Julgue os itens a seguir, relativos às ideias desenvolvidas no texto I.
O autor do texto informa sobre a criativa parceria de Darius Milhaud, Paul Claudel e Blaise Cendrars, determinante para a composição de obras coletivas dos três artistas.
Questão 6

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Julgue os itens a seguir, relativos às ideias desenvolvidas no texto I.
Ao fazer referência à “moda primitivista” (L.34), Alexandre Eulálio trata do Brasil, “país novo, quase um desconhecido de si mesmo” (L. 14 e 15), que fascinava a imaginação de Blaise Cendrars.
Questão 7

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Julgue os itens a seguir, relativos às ideias desenvolvidas no texto I.
Conforme o texto, Blaise Cendrars deixou-se influenciar pelos temas nativistas e pelo “vasto folclore nacional” (L.53) que encontrou ao chegar ao Brasil e manter contato com os compositores do país.
Questão 8

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Julgue os itens a seguir, relativos às ideias desenvolvidas no texto I.
Os títulos de Blaise Cendrars citados no texto, tais como Les Pâques à New York, Prose du Transsibérien e Panama, salientam a tendência do poeta suíço para os comentários sobre viagens, em sua obra, e seu interesse em conhecer lugares.
Questão 9

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Cada um dos itens subsequentes apresenta um trecho do texto I, seguido de uma proposta de reescrita desse trecho. Julgue cada item como certo, se sua reescrita mantiver as informações originais do trecho, ou como errado, se essa reescrita acarretar prejuízo às informações originais.
“É depois da publicação da Anthologie que o compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé de tema negro que deseja compor.” (L. 35 a 38) — O compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final da guerra, busca, após a publicação da Anthologie, a cooperação do poeta, para um balé de tema negro que deseja compor.
Questão 10

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Cada um dos itens subsequentes apresenta um trecho do texto I, seguido de uma proposta de reescrita desse trecho. Julgue cada item como certo, se sua reescrita mantiver as informações originais do trecho, ou como errado, se essa reescrita acarretar prejuízo às informações originais.
“‘Ah, o Brasil, que país!’, exclama uma personagem de La Vie Dangereuse. ‘Que país, esse Brasil!’, repetirão, com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um diplomata reformado.” (L. 1 a 5) — Uma personagem de La Vie Dangereuse exclama: “Ah, o Brasil, que país!”. O taciturno capitão de longo curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um diplomata reformado reiterarão em distintas entonações: “Que país, esse Brasil!”.
Questão 11

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Cada um dos itens subsequentes apresenta um trecho do texto I, seguido de uma proposta de reescrita desse trecho. Julgue cada item como certo, se sua reescrita mantiver as informações originais do trecho, ou como errado, se essa reescrita acarretar prejuízo às informações originais.
“A síntese psicológica e cultural, a paisagem humana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível.” (L. 17 a 19) — Teriam de exercer atração gradualmente irresistível sobre Cendrars a paisagem humana constituída de contrastes do Brasil tão variado, a síntese da psicologia e da cultura.
Questão 12

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Cada um dos itens subsequentes apresenta um trecho do texto I, seguido de uma proposta de reescrita desse trecho. Julgue cada item como certo, se sua reescrita mantiver as informações originais do trecho, ou como errado, se essa reescrita acarretar prejuízo às informações originais.
“É preciso não esquecer também algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.” (L. 29 a 31) — É necessário não esquecer também que os colecionadores disputam algumas plaquettes, ilustradas pelos pintores cubistas mais conhecidos.
Questão 13

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue os itens subsecutivos.
Ao afirmar que o “índio não teve muita sorte na literatura brasileira” (L.1), a autora indica que a representação literária dos personagens indígenas em romances brasileiros foi marcada pela presença do iñaron, “estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo” (L. 20 e 21).
Questão 14

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue os itens subsecutivos.
A autora considera que o romance Maíra é uma incursão do romancista e antropólogo Darcy Ribeiro pelo épico e opina que um “narrador coletivo índio” (L.44) é responsável pelos melhores trechos da mencionada obra literária.
Questão 15

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue os itens subsecutivos.
Conforme o texto, iñaron é palavra tupi que não é apropriada para denotar o sofrimento de todas as tribos indígenas, mas poderia denotar os sentimentos de fúria de heróis gregos como Agave e Aquiles.
Questão 16

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue os itens subsecutivos.
Ao comparar a representação do índio na literatura brasileira com a do índio na literatura hispano-americana, a autora conclui que romances com percepção antropológica costumam ser mais raros e tendem a incursionar pelo épico.
Questão 17

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relacionados às ideias desenvolvidas no texto II.
Ao citar exemplos da literatura grega antiga, Walnice Nogueira Galvão indica que a organização tribal é capaz de gerar conflitos e tensões que transcendem o Brasil ou o espaço hispano-americano.
Questão 18

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relacionados às ideias desenvolvidas no texto II.
Com o trecho “encontram-se, estonteados, os índios” (L.37), a autora do texto evidencia o confronto entre o “capitalismo selvagem no país” (L. 33 e 34) e a cultura indígena.
Questão 19

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relacionados às ideias desenvolvidas no texto II.
Tanto o romance Maíra quanto o relato de Uirá exibem enredos marcados pelas dificuldades enfrentadas por tribos indígenas, atingidas por flagelos trazidos pela civilização não indígena.
Questão 20

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relacionados às ideias desenvolvidas no texto II.
Ao afirmar que “o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura” (L. 49 e 50), a autora defende que romances como Maíra têm o mérito de salvar tribos e civilizações indígenas das forças destrutivas que predominam nas sociedades.
Questão 21

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto II, julgue os itens seguintes.
Na oração que inicia o segundo parágrafo, o verbo concorda com o primeiro núcleo do sujeito posposto, concordância verbal abonada pela gramática normativa.
Questão 22

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto II, julgue os itens seguintes.
Mantendo-se a correção gramatical do texto, o segmento “fora transformado em filme” (L. 11 e 12) poderia ser reescrito da seguinte forma: foi transposto para o cinema.
Questão 23

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto II, julgue os itens seguintes.
Os termos “trágico” (L.15), “de Uirá” (L.16) e “deste século” (R.16) exercem a mesma função sintática, na oração em que ocorrem.
Questão 24

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto II, julgue os itens seguintes.
Sem prejuízo da correção gramatical e do sentido do texto, a expressão “contar nos dedos das mãos” (L.6) poderia ser substituída por contar pelos dedos.
Questão 25

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue os itens a seguir.
As relações semântico-sintáticas no período “Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas” (L. 26 e 27) sustentam a inferência de que Agave tinha mais de um filho e apenas um deles era adulto.
Questão 26

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue os itens a seguir.
O trecho “viceja um esplêndido indigenismo” (L.3) indica que, para a autora, prosperou na literatura hispano-americana, durante todo o século XX, a imagem do índio como herói, como bom selvagem, ou seja, como elemento diferenciador da identidade de nações sul-americanas.
Questão 27

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue os itens a seguir.
A oração reduzida iniciada pelo gerúndio “incluindo” (L.10) poderia ser corretamente substituída pela seguinte oração desenvolvida: no qual se inclui vários trabalhos sobre os índios.
Questão 28

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,
 
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
 
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
 
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores
5
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
 
podem contar nos dedos das mãos os casos.
 
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e
 
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
 
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
10
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os
 
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
 
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
 
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a
 
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
15
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
 
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o
 
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
 
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
 
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
20
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
 
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
 
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez
 
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
 
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
25
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.
 
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
 
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
 
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de
 
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
30
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
 
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não
 
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
 
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
 
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva
35
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
 
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
 
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos
 
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
 
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
40
cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
 
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
 
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
 
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma
 
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
45
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
 
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor
 
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
 
A produção e publicação de um romance como esse,
 
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em
50
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
 
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
 
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,
 
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
 
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
55
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da
 
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
 
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
 
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de
 
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
60
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
 
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do
 
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
 
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
 
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta
65
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
 
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
 
importância da civilização indígena esteja, final e
 
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
 
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue os itens a seguir.
Infere-se do texto que, na tribo Urubu-Kaapor, a fúria sagrada se manifesta sempre que um parente, em especial, um filho, morre, o que, por consequência, demonstra que os índios dessa tribo valorizam os laços familiares e não aceitam a impermanência da existência humana.
Questão 29

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto III, julgue os próximos itens.
O narrador do texto apresenta um “insolúvel enredo de ‘romance de crime e sangue’” (L. 24 e 25), a partir de um episódio familiar, constituído pela degola do seu padrinho e pelo rapto de Sinésio.
Questão 30

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto III, julgue os próximos itens.
O narrador classifica Tobias Barreto de “excelso Gênio brasileiro” (L.32) por este haver escrito um romance que não expressou a índole de um povo superficial, uma vez que a narrativa se revelou enigmática e sangrenta.
Questão 31

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto III, julgue os próximos itens.
Para o narrador, a formação territorial do Brasil foi um ato de bravura que poderia fazer os brasileiros ultrapassarem os feitos narrados por Homero.
Questão 32

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto III, julgue os próximos itens.
Conforme o narrador, brasileiros como Nicolau Fagundes Varela e Tobias Barreto escreveram contra os brasileiros, incapazes, para ambos, de decifrar os enigmas do país e de fazer aparecer um romance de gênio.
Questão 33

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
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saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue os itens subsequentes, relativos às ideias desenvolvidas no texto III.
Em “E comenta, ácido” (L.39), a palavra “ácido” foi empregada, com ironia, para ridicularizar o Desembargador Pontes Visgueiro, criminoso de Alagoas.
Questão 34

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue os itens subsequentes, relativos às ideias desenvolvidas no texto III.
Além de revelar sua identidade e algumas de suas alcunhas, o narrador do texto declara-se apto a, com sua história, superar os irônicos, sejam eles estrangeiros ou não.
Questão 35

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue os itens subsequentes, relativos às ideias desenvolvidas no texto III.
O trecho “Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho” (L. 42 e 43), atribuído pelo narrador a Tobias Barreto, indica que os ‘irônicos estrangeiros’ ridicularizam a pouca capacidade dos brasileiros de conhecerem a realidade em que vivem.
Questão 36

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue os itens subsequentes, relativos às ideias desenvolvidas no texto III.
Em “somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia” (L. 23 e 24), a palavra “trança” foi empregada no sentido de trama.
Questão 37

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com referência ao texto III, julgue os itens que se seguem.
Sem prejuízo da informação veiculada no relato e da correção gramatical do texto, a vírgula empregada logo após “janelas” (L.2) poderia ser substituída pelo conector e.
Questão 38

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com referência ao texto III, julgue os itens que se seguem.
No sintagma “os ‘irônicos estrangeiros’” (L. 21 e 22), o vocábulo ‘irônicos’ é o núcleo do sujeito, o que é confirmado pelo emprego de “irônico” em “desafio qualquer irônico” (L.58).
Questão 39

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com referência ao texto III, julgue os itens que se seguem.
No trecho “porque eu, Dom Pedro Quaderna” (L.54), a conjunção “porque” é expressão de realce, empregada de modo expletivo, visto que não estabelece relação entre a oração que ela introduz e outra oração do período.
Questão 40

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi
 
degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja
 
porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que
 
os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que
5
saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram
 
esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz
 
alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos
 
por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza
 
para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está
10
o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.
 
Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte
 
todos nós, Brasileiros, de que “osirônicos estrangeiros” vivem
 
sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso
 
para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
15
 
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
 
Fatal destino o dos brasílios Vates!
 
Política nefanda, horrenda e negra,
 
pestilento Bulcão abafa e mata
20
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
 
podia honrar o pátrio pensamento!
 
 
Ora, um dos argumentos que os “irônicos
 
estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,
25
Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,
 
uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime
 
e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto
 
dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro
 
é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por
30
um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são
 
pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes
 
ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
 
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:
 
mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!
35
Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um
 
“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular
 
não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.
 
Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,
 
terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num
40
velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre
 
assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:
 
“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça
 
acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham
 
a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística
45
criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais
 
comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de
 
cavalos”.
 
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,
 
julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e
50
outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na
 
mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da
 
América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito
 
maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e
 
aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,
55
mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores
 
e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,
 
O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui
 
chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos
 
súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de
60
cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,
 
primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,
 
cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes
 
que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha
 
história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição
65
profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e
 
bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com referência ao texto III, julgue os itens que se seguem.
No excerto apresentado, são exemplos do uso da linguagem formal escrita: a construção com o pronome relativo “cujos” (L.56) e o emprego da forma verbal “faça” na oração “antes que eu o faça” (L. 60 e 61).
Questão 41

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os itens a seguir.
O autor do excerto afirma que a crítica precisa levar em conta a intuição no julgamento e na análise da obra de arte.
Questão 42

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os itens a seguir.
Na percepção do autor do texto, a simplicidade do poema Juca Mulato resulta da combinação entre a “obsessão do isolamento” (L. 31) e os “modelos estranhos” (L.32) à criação literária.
Questão 43

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os itens a seguir.
Alceu Amoroso Lima salienta a presença da tradição helênica no poema Juca Mulato, de Menotti del Picchia, marcante pela simplicidade, pela sobriedade e pelo caráter.
Questão 44

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os itens a seguir.
Ao afirmar que Menotti del Picchia “procurou a naturalidade e não a arte” (L.18), o autor do texto indica que Juca Mulato é um “poema simples” (L.56), destituído de qualquer valor artístico.
Questão 45

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os seguintes itens.
O autor do excerto valoriza a simplicidade do poema Juca Mulato, comparando-a à das sinfonias de Beethoven e à dos dramas musicais de Wagner, o que faria aumentar a receptividade dessas obras.
Questão 46

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os seguintes itens.
Segundo Alceu Amoroso Lima, a “simplicidade radical” (L.76) de Juca Mulato, julgado comovente, não estimula a crítica a buscar nem “símbolos problemáticos” (L.69) nem “filosofias arbitrárias” (L. 69 e 70) na análise do poema.
Questão 47

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os seguintes itens.
Embora afirme que os versos de Juca Mulato “Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes” (L.42), o autor do texto os considera marcantes.
Questão 48

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue os seguintes itens.
A afirmação de que “O caráter desse livro se conserva pela ressonância que tem” (L. 41 e 42) indica que, para o crítico, os versos de Juca Mulato se perpetuam caso sejam lidos em voz alta ou declamados.
Questão 49

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto IV, julgue os itens a seguir.
Seriam mantidos o sentido original e a correção gramatical do trecho “se bem que a intuição íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis” (L. 62 e 63), caso a expressão “se bem que” e a forma verbal “sejam” fossem substituídas, respectivamente, pelo termo porquanto e pela forma verbal são.
Questão 50

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto IV, julgue os itens a seguir.
A inserção de uma vírgula logo após “impossível”, em “um mal de amor impossível que leva a alma à desesperança” (L. 70 e 71), obrigaria à interpretação de que todo mal de amor impossível leva a alma a tal consequência.
Questão 51

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto IV, julgue os itens a seguir.
No período “Ganhou com isso (...) um eco natural” (L. 78 a 81), o sinal de dois-pontos poderia ser substituído por um travessão, sem que o sentido do texto e sua correção gramatical fossem prejudicados.
Questão 52

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto IV, julgue os itens a seguir.
O trecho “se não corrente” (L.4) poderia ser corretamente substituído por se não for corrente, preservando-se o sentido original do texto.
Questão 53

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relativos a acentuação de palavras e a aspectos gramaticais do texto IV.
No trecho “É certo que a evidência da beleza não pode ser em arte um critério axiomático” (L. 57 a 59), tanto o termo “certo” quanto o termo “axiomático” caracterizam, respectivamente, referentes que constituem sujeitos oracionais.
Questão 54

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relativos a acentuação de palavras e a aspectos gramaticais do texto IV.
No texto, com a expressão “essa arte de titãs” (L.62), o autor faz referência à arte da música.
Questão 55

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relativos a acentuação de palavras e a aspectos gramaticais do texto IV.
A forma “pôde” (L.22) poderia ser corretamente substituída por pode, visto que o seu tempo verbal é depreendido pelo contexto do parágrafo e que o acento nela empregado é opcional.
Questão 56

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”
 
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
 
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
 
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em
5
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
 
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
 
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um
 
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
 
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
10
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra
 
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
 
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
 
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e
 
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
15
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
 
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no
 
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
 
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
 
caminho para atingir a esta.
20
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
 
perfeição.
 
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde
 
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
 
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
25
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza
 
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
 
necessários em quem apenas se inicia.
 
A essência do livro é excelente.
 
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
30
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
 
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem
 
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
 
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
 
independência sem esforço, reside o da obra em sua
35
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
 
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
 
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.
 
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
 
de outras produções secundárias, concorre para a
40
individualidade desse esplêndido ensaio.
 
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
 
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
 
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São
 
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
45
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
 
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não
 
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
 
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
 
das sensações.
50
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
 
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
 
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se
 
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
 
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
55
que lhe auguro.
 
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
 
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
 
evidência da beleza não pode ser em arte um critério
 
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
60
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
 
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa
 
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
 
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
 
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a
65
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
 
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
 
como deve.
 
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
 
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
70
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que
 
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
 
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
 
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas
 
linhas harmoniosas.
75
A beleza maior do poema, que é também o seu
 
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu
 
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
 
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
 
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse
80
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
 
acuidade de um eco natural.
 
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo
 
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
 
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
85
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Julgue os itens seguintes, relativos a acentuação de palavras e a aspectos gramaticais do texto IV.
Os pronomes demonstrativos “isso” (L.47) e “esse” (L.48) retomam, respectivamente, o sentido de julgar e decompor as obras e o de processo.
Questão 57

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
As implicações da globalização para o Estado-nação incluem o impacto sobre sua capacidade de formular autonomamente políticas econômicas no âmbito doméstico, uma vez que ele está muito mais sujeito a pressões e a constrangimentos estruturais do sistema internacional que em outras épocas. A esse respeito, julgue os itens a seguir.
Diferentes economias têm investido em fórmulas regionais de integração produtiva, optando por acordos preferenciais de alcance regional, a partir de maior demanda de países vizinhos para a importação de manufaturas procedentes das respectivas regiões, como é o caso da Ásia-Pacífico e da América do Sul. Nesse modelo, economias menores exportam bens de produção para as maiores (como Brasil e China), as quais, por sua vez, exportam bens finais para as menores.
Questão 58

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
As implicações da globalização para o Estado-nação incluem o impacto sobre sua capacidade de formular autonomamente políticas econômicas no âmbito doméstico, uma vez que ele está muito mais sujeito a pressões e a constrangimentos estruturais do sistema internacional que em outras épocas. A esse respeito, julgue os itens a seguir.
A globalização está calcada na cristalização da divisão internacional do trabalho: países da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do G-7 produzem bens e serviços de alto valor agregado, enquanto os países de renda média e os de menor desenvolvimento relativo especializam-se em produtos de baixa ou de nenhuma intensidade tecnológica. Assim, a dinâmica da globalização torna-se um obstáculo absoluto para que estes últimos se reposicionem competitivamente na divisão internacional do trabalho.
Questão 59

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
As implicações da globalização para o Estado-nação incluem o impacto sobre sua capacidade de formular autonomamente políticas econômicas no âmbito doméstico, uma vez que ele está muito mais sujeito a pressões e a constrangimentos estruturais do sistema internacional que em outras épocas. A esse respeito, julgue os itens a seguir.
Globalização enseja a livre expansão da mobilidade internacional de fatores de produção, do capital financeiro, de investimentos produtivos — tanto de empresas multinacionais quanto de pequenas e médias empresas —, de conhecimento e de mão de obra qualificada e informal.
Questão 60

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
As implicações da globalização para o Estado-nação incluem o impacto sobre sua capacidade de formular autonomamente políticas econômicas no âmbito doméstico, uma vez que ele está muito mais sujeito a pressões e a constrangimentos estruturais do sistema internacional que em outras épocas. A esse respeito, julgue os itens a seguir.
O reforço do multilateralismo — como observado a partir da evolução da OMC nas últimas décadas —, os crescentes custos econômicos e políticos do isolamento, a imposição de padrões ambientais, sociais e de segurança, as exigências de competitividade e a busca crescente de maior qualificação profissional, entre outros fatores, limitam consideravelmente as estratégias nacionais de desenvolvimento baseadas em modelos autárquicos ou protecionistas.
Questão 61

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Quanto a conceitos básicos e escolas teóricas das relações internacionais, julgue os seguintes itens.
A teoria da interdependência complexa, desenvolvida por institucionalistas liberais como Robert Keohane e Joseph Nye, é caracterizada pela não hierarquização de temas de política internacional.
Questão 62

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Quanto a conceitos básicos e escolas teóricas das relações internacionais, julgue os seguintes itens.
De acordo com o liberalismo institucional, as instituições internacionais, como as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio e a União Europeia, ajudam a promover a cooperação entre os Estados, mitigando, assim, as consequências da anarquia do sistema internacional.
Questão 63

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês

» Esta questão foi anulada pela banca.
Quanto a conceitos básicos e escolas teóricas das relações internacionais, julgue os seguintes itens.
Para os teóricos da Escola de Copenhague, o sucesso de um processo de securitização independe de real ameaça à existência do Estado.
Questão 64

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Quanto a conceitos básicos e escolas teóricas das relações internacionais, julgue os seguintes itens.
As teorias das relações internacionais formuladas por Hans Morgenthau e, mais recentemente, por John Mearsheimer, ao postularem a promoção da segurança como finalidade última da ação dos Estados, caracterizam-se pelo realismo defensivo.
Questão 65

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Nos governos de Gaspar Dutra (1946-1951) e de Getúlio Vargas (1951-1954), o Brasil teve de se posicionar em relação à nova realidade mundial determinada pela Guerra Fria. No que se refere à política externa brasileira no período mencionado, julgue os itens seguintes.
Em 1947, o Brasil rompeu relações diplomáticas com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Questão 66

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Nos governos de Gaspar Dutra (1946-1951) e de Getúlio Vargas (1951-1954), o Brasil teve de se posicionar em relação à nova realidade mundial determinada pela Guerra Fria. No que se refere à política externa brasileira no período mencionado, julgue os itens seguintes.
Na IV Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Américas, em 1951, o chanceler brasileiro defendeu a necessidade de promoção do desenvolvimento como melhor forma de impedir o avanço da ideologia comunista na América Latina.
Questão 67

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
Nos governos de Gaspar Dutra (1946-1951) e de Getúlio Vargas (1951-1954), o Brasil teve de se posicionar em relação à nova realidade mundial determinada pela Guerra Fria. No que se refere à política externa brasileira no período mencionado, julgue os itens seguintes.
Sob a justificativa de que o caso grego seria um reflexo da guerra política desenvolvida pelo comunismo internacional nos diversos países, com o objetivo de dominar o mundo, o Brasil apoiou a intervenção de potências ocidentais na guerra civil grega.
Questão 68

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Nos governos de Gaspar Dutra (1946-1951) e de Getúlio Vargas (1951-1954), o Brasil teve de se posicionar em relação à nova realidade mundial determinada pela Guerra Fria. No que se refere à política externa brasileira no período mencionado, julgue os itens seguintes.
O Brasil absteve-se na votação da resolução da ONU que, em 1950, declarou ser a República Popular da China culpada pela agressão da Coreia do Norte à Coreia do Sul.
Questão 69

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Vistas sob a perspectiva histórica, as relações entre Brasil e China foram definidas como um demorado encontro. De 1843, quando foi instalado o consulado brasileiro em Cantão, aos dias de hoje, afastamento e aproximação deram a tônica desse relacionamento. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem.
Sob a vigência da Política Externa Independente, em 1961, o Brasil enviou à República Popular da China uma missão comercial chefiada pelo vice-presidente João Goulart, o que agravou a desconfiança dos militares e da direita brasileira para com Goulart.
Questão 70

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Vistas sob a perspectiva histórica, as relações entre Brasil e China foram definidas como um demorado encontro. De 1843, quando foi instalado o consulado brasileiro em Cantão, aos dias de hoje, afastamento e aproximação deram a tônica desse relacionamento. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem.
Fernando Collor de Melo foi o primeiro presidente brasileiro a empreender visita oficial à China e à Ásia continental.
Questão 71

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Vistas sob a perspectiva histórica, as relações entre Brasil e China foram definidas como um demorado encontro. De 1843, quando foi instalado o consulado brasileiro em Cantão, aos dias de hoje, afastamento e aproximação deram a tônica desse relacionamento. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem.
No Brasil, a rigidez ideológica do regime militar, ainda sob o influxo da Guerra Fria, impediu que o país normalizasse suas relações com Pequim, o que somente se deu com a redemocratização, ocorrida em 1985.
Questão 72

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Vistas sob a perspectiva histórica, as relações entre Brasil e China foram definidas como um demorado encontro. De 1843, quando foi instalado o consulado brasileiro em Cantão, aos dias de hoje, afastamento e aproximação deram a tônica desse relacionamento. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem.
Em 1952, no auge da Guerra da Coreia, emblemática de um sistema mundial bipolar, o Brasil oficializou seu apoio à China Nacionalista, instalando embaixada em Taipé.
Questão 73

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Desde o advento das reformas empreendidas por Deng Xiaoping — a partir de 1978 —, a China experimenta uma inserção crescente, ampla e contínua na economia global, em termos de crescimento econômico, inovação, investimentos, expansão de infraestrutura, geração de energia, ampliação de mercados e diversificação de exportações. A respeito da expansão dos interesses e da diplomacia econômica chinesa, julgue os itens subsequentes.
A China, empenhada em adotar um novo padrão de crescimento econômico, baseado em indústrias menos intensivas na emissão de gás carbônico, vem buscando restringir investimentos em atividades poluidoras tanto em nível doméstico quanto internacional e, junto com os EUA, comprometeu-se recentemente a retirar gradativamente subsídios a atividades econômicas mantidas à base da queima de combustíveis fósseis.
Questão 74

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» Esta questão foi anulada pela banca.
Desde o advento das reformas empreendidas por Deng Xiaoping — a partir de 1978 —, a China experimenta uma inserção crescente, ampla e contínua na economia global, em termos de crescimento econômico, inovação, investimentos, expansão de infraestrutura, geração de energia, ampliação de mercados e diversificação de exportações. A respeito da expansão dos interesses e da diplomacia econômica chinesa, julgue os itens subsequentes.
Uma tendência de reorientação no tocante ao padrão de investimentos chineses na América Latina fez que o Brasil superasse a Venezuela, em 2015, como principal destino dos investimentos chineses na região. Essa mudança é também qualitativa, uma vez que investimentos em infraestrutura têm superado os meramente extrativistas.
Questão 75

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Desde o advento das reformas empreendidas por Deng Xiaoping — a partir de 1978 —, a China experimenta uma inserção crescente, ampla e contínua na economia global, em termos de crescimento econômico, inovação, investimentos, expansão de infraestrutura, geração de energia, ampliação de mercados e diversificação de exportações. A respeito da expansão dos interesses e da diplomacia econômica chinesa, julgue os itens subsequentes.
Em abril de 2016, a China anunciou programa de exploração de nova rota marítima, na região do Ártico, como forma de expandir suas linhas comerciais no hemisfério norte.
Questão 76

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Desde o advento das reformas empreendidas por Deng Xiaoping — a partir de 1978 —, a China experimenta uma inserção crescente, ampla e contínua na economia global, em termos de crescimento econômico, inovação, investimentos, expansão de infraestrutura, geração de energia, ampliação de mercados e diversificação de exportações. A respeito da expansão dos interesses e da diplomacia econômica chinesa, julgue os itens subsequentes.
Não obstante a expansão da oferta chinesa de bens e serviços de alto valor agregado, o país defronta-se com claros limites à expansão de sua competitividade global, diante do estancamento dos seus índices de produtividade do trabalho, desde meados da década passada.
Questão 77

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Tendo-se tornado a segunda potência econômica mundial neste século — e mesmo a primeira, com base em critérios de poder paritário de compra —, a China iniciou, sob a presidência do premier Xi Jinping, movimento de intensificação de sua influência global, forjando parcerias e expandindo seus interesses políticos em todos os quadrantes do mundo. Julgue os próximos itens, no que se refere a ações prioritárias da política externa chinesa na presente década.
Diante da nova preeminência política da China no cenário global, o país tem reconsiderado, em foros internacionais recentes — como na cúpula dos BRICS, em Fortaleza, em 2014, e na reunião de chanceleres da CELAC, em Pequim, em 2015 —, sua tradicional oposição à reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, por meio do apoio à fórmula que contempla o acréscimo de seis novos membros permanentes com direito de veto, a maioria dos quais países não industrializados.
Questão 78

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Tendo-se tornado a segunda potência econômica mundial neste século — e mesmo a primeira, com base em critérios de poder paritário de compra —, a China iniciou, sob a presidência do premier Xi Jinping, movimento de intensificação de sua influência global, forjando parcerias e expandindo seus interesses políticos em todos os quadrantes do mundo. Julgue os próximos itens, no que se refere a ações prioritárias da política externa chinesa na presente década.
O incremento do prestígio político da China nos últimos anos pode ser aquilatado pelo novo modelo de relação entre potências (new model of great power relations), sugerido pelos chineses aos EUA em 2013 e adotado no final de 2014, durante o encontro dos presidentes Barack Obama e Xi Jinping, em Washington.
Questão 79

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Tendo-se tornado a segunda potência econômica mundial neste século — e mesmo a primeira, com base em critérios de poder paritário de compra —, a China iniciou, sob a presidência do premier Xi Jinping, movimento de intensificação de sua influência global, forjando parcerias e expandindo seus interesses políticos em todos os quadrantes do mundo. Julgue os próximos itens, no que se refere a ações prioritárias da política externa chinesa na presente década.
No tocante às relações China-Rússia, Pequim absteve-se na votação da Resolução nº 68/262 da Assembleia-Geral das Nações Unidas, referente à integridade territorial da Ucrânia — ainda que tenha subsequentemente demonstrado respeito pela independência, pela soberania e pela integridade territorial daquele país —, tendo em vista suas sensibilidades específicas em relação ao Tibet.
Questão 80

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Tendo-se tornado a segunda potência econômica mundial neste século — e mesmo a primeira, com base em critérios de poder paritário de compra —, a China iniciou, sob a presidência do premier Xi Jinping, movimento de intensificação de sua influência global, forjando parcerias e expandindo seus interesses políticos em todos os quadrantes do mundo. Julgue os próximos itens, no que se refere a ações prioritárias da política externa chinesa na presente década.
O aumento da influência política chinesa no mundo correspondeu a um aumento da rivalidade com o Japão nos campos político, de defesa e militar, diante de fatos como a adoção, pelos japoneses, de uma nova diretiva de defesa nacional, o fim da proibição de exportações de armas e o aumento do orçamento de defesa.
Questão 81

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O movimento de normalização das relações com Cuba, a partir de 2014, constitui um marco da política externa do governo do presidente Barack Obama para a América Latina. A respeito das relações hemisféricas dos EUA durante a gestão Obama, julgue os itens subsecutivos.
Os EUA indispuseram-se com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que se recusou a convocar sessão do Conselho Permanente da OEA para tratar de alteração da ordem constitucional na Venezuela e do referendo revogatório defendido pela oposição venezuelana.
Questão 82

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O movimento de normalização das relações com Cuba, a partir de 2014, constitui um marco da política externa do governo do presidente Barack Obama para a América Latina. A respeito das relações hemisféricas dos EUA durante a gestão Obama, julgue os itens subsecutivos.
Após anúncio do presidente Obama, em 2014, o governo norte-americano implantou medidas migratórias que beneficiaram milhões de indivíduos sem documentos no país, com a regularização de seu status migratório. A medida amparou majoritariamente imigrantes latinos que passaram a dispor de direitos atribuídos a cidadãos norte-americanos e a imigrantes documentados.
Questão 83

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O movimento de normalização das relações com Cuba, a partir de 2014, constitui um marco da política externa do governo do presidente Barack Obama para a América Latina. A respeito das relações hemisféricas dos EUA durante a gestão Obama, julgue os itens subsecutivos.
As consequências positivas diretas da retomada das relações com Cuba incluem o abrandamento das restrições para que norte-americanos visitem a ilha, o aumento do limite de remessa de recursos financeiros dos EUA para Cuba, o relaxamento das restrições para que empresas norte-americanas exportem para Cuba e o anúncio de investimentos norte-americanos na ilha, em setores como hotelaria, finanças, turismo e comunicações.
Questão 84

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O movimento de normalização das relações com Cuba, a partir de 2014, constitui um marco da política externa do governo do presidente Barack Obama para a América Latina. A respeito das relações hemisféricas dos EUA durante a gestão Obama, julgue os itens subsecutivos.
No plano político, os principais pontos de atrito com o Brasil durante a gestão Obama foram a oposição brasileira à Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas — aprovada em 2010 e patrocinada pelos EUA — de imposição de sanções econômico-comerciais ao Irã e a revelação, em 2013, da interceptação ilegal de conversas telefônicas de autoridades brasileiras pela Agência de Segurança Nacional dos EUA.
Questão 85

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A respeito das relações internacionais no Oriente Médio, julgue os itens que se seguem.
O grupo islâmico Hamas tem contabilizado sucessivas vitórias nas eleições legislativas ocorridas na Faixa de Gaza, que são realizadas regularmente desde 2006, para mandatos de quatro anos.
Questão 86

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A respeito das relações internacionais no Oriente Médio, julgue os itens que se seguem.
A demissão em massa de funcionários públicos ligados ao Partido Ba’ath, de Saddam Hussein, no contexto subsequente à invasão do Iraque, em 2003, contribuiu para ampliar a instabilidade política, econômica e social do país.
Questão 87

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A respeito das relações internacionais no Oriente Médio, julgue os itens que se seguem.
O caráter religioso do regime iniciado com a Revolução Iraniana de 1979 foi referendado pela maioria da população, que optou pelo modelo da República Islâmica em detrimento da monarquia.
Questão 88

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A respeito das relações internacionais no Oriente Médio, julgue os itens que se seguem.
O Irã tem sido acusado por outros países do Oriente Médio de, aproveitando-se do contexto da denominada “Primavera Árabe”, estimular a sublevação de populações xiitas contra os seus governantes sunitas, como estratégia de busca de hegemonia regional.
Questão 89

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Nas décadas de 60 e 70 do século passado, o Brasil tomou a iniciativa de explorar o potencial hidrelétrico da bacia do rio Paraná, o que gerou repercussões na Argentina e no Paraguai. No que se refere a esse assunto, julgue os seguintes itens.
O Tratado do Rio da Prata, assinado em 1979 por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, disciplinou o uso dos rios internacionais da região para a produção de energia elétrica e irrigação agrícola.
Questão 90

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Nas décadas de 60 e 70 do século passado, o Brasil tomou a iniciativa de explorar o potencial hidrelétrico da bacia do rio Paraná, o que gerou repercussões na Argentina e no Paraguai. No que se refere a esse assunto, julgue os seguintes itens.
Com a Ata das Cataratas, de 1966, o Brasil, para atender às necessidades energéticas de industrialização da região Sudeste, comprometeu-se a comprar o excedente de energia paraguaia gerado pela represa hidrelétrica de Yacyretá, pelo prazo de dez anos.
Questão 91

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Nas décadas de 60 e 70 do século passado, o Brasil tomou a iniciativa de explorar o potencial hidrelétrico da bacia do rio Paraná, o que gerou repercussões na Argentina e no Paraguai. No que se refere a esse assunto, julgue os seguintes itens.
Em 1973, Brasil e Paraguai assinaram um tratado para o aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná, desde Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu. Os termos do contrato determinavam a criação da empresa binacional Itaipu e a participação dos dois países, em condições de igualdade, na construção e operação da hidrelétrica e na divisão da energia gerada.
Questão 92

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Nas décadas de 60 e 70 do século passado, o Brasil tomou a iniciativa de explorar o potencial hidrelétrico da bacia do rio Paraná, o que gerou repercussões na Argentina e no Paraguai. No que se refere a esse assunto, julgue os seguintes itens.
O governo argentino defendeu que, antes da construção de represas na bacia do rio Paraná, deveria haver consulta prévia obrigatória aos países ribeirinhos do curso inferior de rios internacionais de curso sucessivo, para evitar prejuízos em seus territórios.
Questão 93

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Durante parte da década de 80 até pelo menos a crise econômica de 2001, o realismo periférico (RP) despontou como importante corrente teórico-metodológica das relações internacionais na América Latina e, em particular, na Argentina. Julgue os seguintes itens, referentes ao arcabouço teórico do RP e (ou) à sua práxis política.
O RP postula um tipo de política externa que corresponde ao conceito de Estado comerciante de Richard Rosecrance, em contraposição à premissa realista clássica segundo a qual os Estados nacionais devem pautar suas políticas externas por considerações de índole político-militar.
Questão 94

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» Esta questão foi anulada pela banca.
Durante parte da década de 80 até pelo menos a crise econômica de 2001, o realismo periférico (RP) despontou como importante corrente teórico-metodológica das relações internacionais na América Latina e, em particular, na Argentina. Julgue os seguintes itens, referentes ao arcabouço teórico do RP e (ou) à sua práxis política.
O RP pode ser classificado como uma teoria desconstrutivista, na medida em que se insurge contra postulados por ele considerados deletérios, contraproducentes e(ou) ideológicos, tais como patriotismo, interesse nacional, segurança e sobrevivência nacional, entre outros análogos.
Questão 95

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Durante parte da década de 80 até pelo menos a crise econômica de 2001, o realismo periférico (RP) despontou como importante corrente teórico-metodológica das relações internacionais na América Latina e, em particular, na Argentina. Julgue os seguintes itens, referentes ao arcabouço teórico do RP e (ou) à sua práxis política.
Atributo da política exterior argentina dos anos 90, consentâneo com os princípios do RP, foi a adoção de uma “agenda positiva” consubstanciada, por exemplo, na participação do país em missões de paz das Nações Unidas, no apoio aos EUA na Guerra do Golfo e na assinatura de diversos acordos bilaterais de garantias de investimentos.
Questão 96

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Durante parte da década de 80 até pelo menos a crise econômica de 2001, o realismo periférico (RP) despontou como importante corrente teórico-metodológica das relações internacionais na América Latina e, em particular, na Argentina. Julgue os seguintes itens, referentes ao arcabouço teórico do RP e (ou) à sua práxis política.
Na sequência da invasão norte-americana do Panamá, em 1989, a Argentina, em atitude condizente com os postulados do RP, foi o único país do continente americano a apoiar os EUA na sessão da OEA realizada em 22/12/1989, em que se aprovou resolução na qual a Organização “lamenta profundamente a intervenção militar no Panamá”.
Questão 97

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A política externa alemã passa por mudanças drásticas, com a diversificação de temas e espaços de atuação, em comparação à agenda anterior, mais restrita a temas da Europa e do G-7. Tendo como referência essas modificações, julgue os itens que se seguem, a respeito da agenda externa alemã contemporânea.
A Alemanha tem-se mostrado disposta a levantar, ou ao menos a atenuar, as sanções impostas à Rússia em decorrência da anexação da Crimeia — considerada ilegal — e da desestabilização deliberada da Ucrânia, caso a Rússia cumpra os Acordos de Minsk, celebrados em fevereiro de 2015.
Questão 98

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A política externa alemã passa por mudanças drásticas, com a diversificação de temas e espaços de atuação, em comparação à agenda anterior, mais restrita a temas da Europa e do G-7. Tendo como referência essas modificações, julgue os itens que se seguem, a respeito da agenda externa alemã contemporânea.
No tocante às relações com o Brasil, destaca-se o importante papel da Alemanha no fortalecimento do sistema brasileiro de inovação, por meio de parcerias, especialmente com a Sociedade Fraunhofer, que permitiram a criação e o desenvolvimento dos Institutos SENAI de Inovação, da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), da FINEP – Inovação e Pesquisa e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA).
Questão 99

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A política externa alemã passa por mudanças drásticas, com a diversificação de temas e espaços de atuação, em comparação à agenda anterior, mais restrita a temas da Europa e do G-7. Tendo como referência essas modificações, julgue os itens que se seguem, a respeito da agenda externa alemã contemporânea.
As relações teuto-norte-americanas têm sido marcadas por afastamento e até certa hostilidade, diante da revelação, pela plataforma Wikileaks, da interceptação de conversas e documentos reservados, inclusive de altas autoridades alemãs, pela Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA), fato que ensejou a chamada a consultas do embaixador alemão em Washington.
Questão 100

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A política externa alemã passa por mudanças drásticas, com a diversificação de temas e espaços de atuação, em comparação à agenda anterior, mais restrita a temas da Europa e do G-7. Tendo como referência essas modificações, julgue os itens que se seguem, a respeito da agenda externa alemã contemporânea.
As relações entre Alemanha e Turquia ficaram sensivelmente desgastadas após a aprovação, pelo Parlamento alemão, de moção que qualifica de genocídio o massacre de armênios por tropas otomanas em 1915 e 1916, tendo o próprio governo alemão reconhecido que a aprovação da moção tem potencial para desestabilizar as relações bilaterais, especialmente no que tange ao tratamento de temas como refugiados e migrações.
Questão 101

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De acordo com o documento Common Purpose: Towards a more effective OSCE, de junho de 2005, a Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa (OSCE) é “a única organização regional para a cooperação em temas de segurança na qual Estados-membros de Vancouver a Vladivostok participam em condições de igualdade”. A respeito da OSCE, julgue os itens a seguir.
Um dos mandatos de maior expressão da OSCE é a ação coordenada dos Estados participantes no combate ao terrorismo. Essa ação, no entanto, é limitada pelos respectivos dispositivos nacionais e multilaterais de respeito aos direitos humanos e ao direito internacional.
Questão 102

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De acordo com o documento Common Purpose: Towards a more effective OSCE, de junho de 2005, a Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa (OSCE) é “a única organização regional para a cooperação em temas de segurança na qual Estados-membros de Vancouver a Vladivostok participam em condições de igualdade”. A respeito da OSCE, julgue os itens a seguir.
A OSCE é uma organização voltada para a promoção da segurança internacional dos cinquenta e sete Estados participantes, com foco exclusivo no controle do comércio de armas e de sua não proliferação, no combate ao terrorismo e em medidas de construção e manutenção da paz e da segurança.
Questão 103

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De acordo com o documento Common Purpose: Towards a more effective OSCE, de junho de 2005, a Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa (OSCE) é “a única organização regional para a cooperação em temas de segurança na qual Estados-membros de Vancouver a Vladivostok participam em condições de igualdade”. A respeito da OSCE, julgue os itens a seguir.
As resoluções da OSCE, que são tomadas por consenso dos cinquenta e sete países participantes, têm caráter mandatório e vinculante.
Questão 104

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De acordo com o documento Common Purpose: Towards a more effective OSCE, de junho de 2005, a Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa (OSCE) é “a única organização regional para a cooperação em temas de segurança na qual Estados-membros de Vancouver a Vladivostok participam em condições de igualdade”. A respeito da OSCE, julgue os itens a seguir.
A OSCE mantém programas de cooperação na área de segurança internacional com a OTAN, as Nações Unidas e a União Europeia. Com a ONU, um dos principais programas refere-se ao apoio à implementação da Resolução nº 1.540/2004, do Conselho de Segurança, a respeito do controle da proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas.
Questão 105

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No que diz respeito às principais correntes metodológicas da Geografia e sua aplicação, julgue os itens seguintes.
O fato de a Geografia Humanista considerar o espaço um lugar, extensão carregada de significações, possibilita que ela trate de questões práticas como as que envolvam a percepção ambiental e a valoração arquitetônica.
Questão 106

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No que diz respeito às principais correntes metodológicas da Geografia e sua aplicação, julgue os itens seguintes.
Tanto o planejamento urbano quanto os símbolos patrimoniais ou culturais da formação territorial histórica, dimensões do espaço vivido nas metrópoles que impactam as pessoas, podem ser analisados no viés geográfico crítico.
Questão 107

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No que diz respeito às principais correntes metodológicas da Geografia e sua aplicação, julgue os itens seguintes.
A Geografia Teorética ou Nova Geografia reforça a Geografia Tradicional e desprestigia o planejamento territorial adotado pelo Estado.
Questão 108

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No que diz respeito às principais correntes metodológicas da Geografia e sua aplicação, julgue os itens seguintes.
A Geografia Crítica, ao debater a questão da produção econômica do espaço, reconhece a importância dos agentes hegemônicos do capital na minimização das disparidades urbanas.
Questão 109

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Acerca da formação territorial brasileira, julgue os itens a seguir.
A partir da segunda metade do século XIX, a produção e o território se mecanizaram, de forma que às técnicas das máquinas circunscritas à produção sucederam as técnicas das máquinas incluídas no território.
Questão 110

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Acerca da formação territorial brasileira, julgue os itens a seguir.
No decorrer do século XX, o aparelhamento dos portos, a construção de estradas de ferro e as novas formas de participação do país na fase industrial fizeram do Sudeste a região com maior concentração de capital, de modo independente de uma nova regionalização agrária ou urbana brasileira.
Questão 111

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Acerca da formação territorial brasileira, julgue os itens a seguir.
Com a construção de Brasília, a nova capital brasileira, pretendeu-se superar três dificuldades para a implementação do Plano de Metas do então presidente Juscelino Kubistchek: a inexistência de uma localização privilegiada do poder para o rearranjo das economias regionais, em prol da unificação do mercado nacional; o enrijecimento econômico do litoral, palco da colonização; o potencial burguês latifundiário e urbano concentrados nas antigas ilhas territoriais produtivas de café e cana-de-açúcar.
Questão 112

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Acerca da formação territorial brasileira, julgue os itens a seguir.
Nos três primeiros séculos de colonização portuguesa no Brasil, a produção no território brasileiro era fundada na criação de um meio técnico mais dependente do trabalho direto e concreto do homem do que da incorporação de capital à natureza.
Questão 113

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A mundialização não diz respeito apenas às atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a adaptação dos mais fracos e desguarnecidos.

François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue os itens subsequentes.

A agricultura moderna brasileira elabora usos e apropriações da terra com reduzida demanda de recursos hídricos e maximização da fragmentação do território nacional.
Questão 114

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A mundialização não diz respeito apenas às atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a adaptação dos mais fracos e desguarnecidos.

François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue os itens subsequentes.

Mundialização do capital ou globalização refletem a capacidade estratégica de grandes grupos oligopolistas, voltados para a produção industrial ou para as principais atividades de serviços, em adotar, por conta própria, enfoque e conduta globais.
Questão 115

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A mundialização não diz respeito apenas às atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a adaptação dos mais fracos e desguarnecidos.

François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue os itens subsequentes.

O princípio geográfico da localização, no mundo globalizado economicamente competitivo, é superado pelos sistemas técnicos e de informação.
Questão 116

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A mundialização não diz respeito apenas às atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a adaptação dos mais fracos e desguarnecidos.

François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue os itens subsequentes.

No mundo globalizado, observa-se uma tendência de compartimentação generalizada dos territórios, onde se associam e se chocam o movimento geral da sociedade do trabalho e o movimento particular de cada fração espacial: do nacional ao regional e ao local.
Questão 117

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País de território misto, marcado a um só tempo pela continentalidade e maritimidade, o Brasil tem, na análise dos clássicos da teoria geopolítica relacionados ao poder naval (Mahan) e na da teoria do poder terrestre (Mackinder), importantes questões para a discussão de uma visão estratégica contemporânea, em um contexto em que há um importante aumento da estrutura política e econômica do país no cenário mundial.

Ronaldo Gomes Carmona. Geopolítica clássica e geopolítica brasileira contemporânea: Mahan e Mackinder e a “grande estratégia” do Brasil para o Século XXI. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o trecho do texto de Ronaldo G. Carmona, julgue os itens seguintes, acerca de continentalidade, maritimidade e geopolítica brasileira no século XXI.

A vasta extensão territorial do Brasil, que corresponde a 47% do território sul-americano, indica a necessidade de segurança das fronteiras com seus países vizinhos, de responsabilidade dos órgãos de segurança pública, da Secretaria da Receita Federal e das forças armadas.
Questão 118

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País de território misto, marcado a um só tempo pela continentalidade e maritimidade, o Brasil tem, na análise dos clássicos da teoria geopolítica relacionados ao poder naval (Mahan) e na da teoria do poder terrestre (Mackinder), importantes questões para a discussão de uma visão estratégica contemporânea, em um contexto em que há um importante aumento da estrutura política e econômica do país no cenário mundial.

Ronaldo Gomes Carmona. Geopolítica clássica e geopolítica brasileira contemporânea: Mahan e Mackinder e a “grande estratégia” do Brasil para o Século XXI. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o trecho do texto de Ronaldo G. Carmona, julgue os itens seguintes, acerca de continentalidade, maritimidade e geopolítica brasileira no século XXI.

Em relação à segurança nacional, as bacias hidrográficas amazônica e do Paraguai são consideradas não prioritárias, em razão de seu isolamento e distanciamento em relação aos grandes centros urbanos do centro-sul do país e também da ocupação rarefeita da população nas regiões onde se situam.
Questão 119

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País de território misto, marcado a um só tempo pela continentalidade e maritimidade, o Brasil tem, na análise dos clássicos da teoria geopolítica relacionados ao poder naval (Mahan) e na da teoria do poder terrestre (Mackinder), importantes questões para a discussão de uma visão estratégica contemporânea, em um contexto em que há um importante aumento da estrutura política e econômica do país no cenário mundial.

Ronaldo Gomes Carmona. Geopolítica clássica e geopolítica brasileira contemporânea: Mahan e Mackinder e a “grande estratégia” do Brasil para o Século XXI. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o trecho do texto de Ronaldo G. Carmona, julgue os itens seguintes, acerca de continentalidade, maritimidade e geopolítica brasileira no século XXI.

A Política de Defesa Nacional destaca a importância do controle e defesa dos chamados ativos estratégicos do Brasil: fontes de água doce e de energia, biodiversidade, imensas reservas de recursos naturais e extensas áreas a serem incorporadas ao sistema produtivo nacional.
Questão 120

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País de território misto, marcado a um só tempo pela continentalidade e maritimidade, o Brasil tem, na análise dos clássicos da teoria geopolítica relacionados ao poder naval (Mahan) e na da teoria do poder terrestre (Mackinder), importantes questões para a discussão de uma visão estratégica contemporânea, em um contexto em que há um importante aumento da estrutura política e econômica do país no cenário mundial.

Ronaldo Gomes Carmona. Geopolítica clássica e geopolítica brasileira contemporânea: Mahan e Mackinder e a “grande estratégia” do Brasil para o Século XXI. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012 (com adaptações).

Tendo como referência inicial o trecho do texto de Ronaldo G. Carmona, julgue os itens seguintes, acerca de continentalidade, maritimidade e geopolítica brasileira no século XXI.

O fato de o Brasil possuir um vasto litoral com importantes reservas de recursos naturais é, por si só, indicativo de que o país deve investir na força naval de defesa de seu território oceânico.
Questão 121

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No início do século XIX, o conjunto de pressupostos históricos de sistematização da geografia já havia ocorrido: a Terra já estava toda reconhecida; a Europa articulava um espaço de relações econômicas mundial; havia informações dos lugares mais variados da superfície terrestre, bem como representações do globo, devido ao uso cada vez maior de mapas.

Antônio Carlos Robert Moraes. Apud: Auro de Jesus Rodrigues. Geografia: introdução à ciência geográfica. São Paulo: Editora Avercamp, 2008 (com adaptações).

O neocolonialismo teve forte influência no desenvolvimento do pensamento geográfico europeu durante o século XIX e o início do século XX. A geografia, enquanto ciência a serviço dos Estados nacionais, foi instrumento de poder europeu sob vastas extensões territoriais na África, na América, na Ásia e na Oceania. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem, tendo como referência o texto apresentado.

Os estudos da geografia na França, com uma formação filosófica e social mais humanista, voltavam-se, no período citado, para os estudos das diferenças entre as várias regiões do país e do mundo, com apontamentos das causas do subdesenvolvimento das colônias e da riqueza das metrópoles.
Questão 122

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No início do século XIX, o conjunto de pressupostos históricos de sistematização da geografia já havia ocorrido: a Terra já estava toda reconhecida; a Europa articulava um espaço de relações econômicas mundial; havia informações dos lugares mais variados da superfície terrestre, bem como representações do globo, devido ao uso cada vez maior de mapas.

Antônio Carlos Robert Moraes. Apud: Auro de Jesus Rodrigues. Geografia: introdução à ciência geográfica. São Paulo: Editora Avercamp, 2008 (com adaptações).

O neocolonialismo teve forte influência no desenvolvimento do pensamento geográfico europeu durante o século XIX e o início do século XX. A geografia, enquanto ciência a serviço dos Estados nacionais, foi instrumento de poder europeu sob vastas extensões territoriais na África, na América, na Ásia e na Oceania. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem, tendo como referência o texto apresentado.

O levantamento e a descrição de informações nos trabalhos geográficos do século XIX e do início do século XX foram influenciados pela ideia de multidisciplinaridade das ciências. Assim, as informações sobre paisagens e regiões eram apresentadas, de forma detalhada, com sessões conjuntas para fatos humanos (população, economia, povoamento etc.) e fatos naturais (clima, relevo, vegetação, geologia, hidrografia, recursos naturais).
Questão 123

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No início do século XIX, o conjunto de pressupostos históricos de sistematização da geografia já havia ocorrido: a Terra já estava toda reconhecida; a Europa articulava um espaço de relações econômicas mundial; havia informações dos lugares mais variados da superfície terrestre, bem como representações do globo, devido ao uso cada vez maior de mapas.

Antônio Carlos Robert Moraes. Apud: Auro de Jesus Rodrigues. Geografia: introdução à ciência geográfica. São Paulo: Editora Avercamp, 2008 (com adaptações).

O neocolonialismo teve forte influência no desenvolvimento do pensamento geográfico europeu durante o século XIX e o início do século XX. A geografia, enquanto ciência a serviço dos Estados nacionais, foi instrumento de poder europeu sob vastas extensões territoriais na África, na América, na Ásia e na Oceania. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem, tendo como referência o texto apresentado.

Os estudos geográficos constituíram, no período citado, uma justificativa ideológica de legitimação da exploração de outros povos pelos países imperialistas, em substituição à religião, cujas explicações para tal exploração estavam sendo questionadas, com a difusão do conhecimento científico.
Questão 124

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
No início do século XIX, o conjunto de pressupostos históricos de sistematização da geografia já havia ocorrido: a Terra já estava toda reconhecida; a Europa articulava um espaço de relações econômicas mundial; havia informações dos lugares mais variados da superfície terrestre, bem como representações do globo, devido ao uso cada vez maior de mapas.

Antônio Carlos Robert Moraes. Apud: Auro de Jesus Rodrigues. Geografia: introdução à ciência geográfica. São Paulo: Editora Avercamp, 2008 (com adaptações).

O neocolonialismo teve forte influência no desenvolvimento do pensamento geográfico europeu durante o século XIX e o início do século XX. A geografia, enquanto ciência a serviço dos Estados nacionais, foi instrumento de poder europeu sob vastas extensões territoriais na África, na América, na Ásia e na Oceania. A respeito desse assunto, julgue os itens que se seguem, tendo como referência o texto apresentado.

O determinismo geográfico serviu para a legitimação das políticas expansionistas dos países imperialistas europeus, notadamente o alemão. O geógrafo alemão Ratzel, por exemplo, teorizou a relação entre os Estados nacionais e seu território, apontando que o potencial de desenvolvimento de um Estado-nação se daria basicamente pela relação entre dois fatores: a população e os recursos naturais do território.
Questão 125

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
On a visit to Beirut during the terrible civil war of
 
1975-1976 a French journalist wrote regretfully of the gutted
 
downtown area that “it had once seemed to belong to the
 
Orient of Chateaubriand and Nerval”. He was right about the
5
place, of course, especially so far as a European was
 
concerned. The Orient was almost a European invention, and
 
had been since antiquity a place of romance, exotic beings,
 
haunting memories and landscapes, remarkable experiences.
 
Now it was disappearing; in a sense it had happened, its time
10
was over.
 
Americans will not feel quite the same about the
 
Orient, which for them is much more likely to be associated
 
very differently with the Far East (China and Japan, mainly).
 
Unlike the Americans, the French and the British — less so the
15
Germans, Russians, Spanish, Portuguese, Italians, and Swiss —
 
have had a long tradition of what I shall be calling Orientalism,
 
a way of coming to terms with the Orient that is based on the
 
Orient’s special place in European Western experience. The
 
Orient is not only adjacent to Europe; it is also the place of
20
Europe’s greatest and richest and oldest colonies, the source of
 
its civilizations and languages, its cultural contestant, and one
 
of its deepest and most recurring images of the Other. In
 
addition, the Orient has helped to define Europe (or the West)
 
as its contrasting image, idea, personality, experience. The
25
Orient is an integral part of European material civilization and
 
culture. Orientalism expresses and represents that part
 
culturally and even ideologically as a mode of discourse with
 
supporting institutions, vocabulary, scholarship, imagery,
 
doctrines, even colonial bureaucracies and colonial styles. In
30
contrast, the American understanding of the Orient will seem
 
considerably less dense.
 
To speak of Orientalism therefore is to speak mainly,
 
although not exclusively, of a British and French cultural
 
enterprise, a project whose dimensions take in such disparate
35
realms as the imagination itself, the whole of India and the
 
Levant, the spice trade, colonial armies and a long tradition of
 
colonial administrators, a formidable scholarly corpus,
 
innumerable Oriental “experts” and “hands”, an Oriental
 
professorate, many Eastern sects, philosophies, and wisdoms
40
domesticated for local European use — the list can be
 
extended more or less indefinitely. From the beginning of the
 
nineteenth century until the end of World War II, France and
 
Britain dominated the Orient and Orientalism; since World
 
War II America has dominated the Orient, and approaches it as
45
France and Britain once did. Out of that closeness, whose
 
dynamic is enormously productive even if it always
 
demonstrates the comparatively greater strength of the
 
Occident (British, French, or American), comes the large body
 
of texts I call Orientalist.
E. W. Said. Orientalism. New York: Pantheon, 1978, p. 1-4 (adapted)
Decide whether the following statements are right or wrong according to text I.
The author asserts that the Orient, as Europeans tend to see it, is a culturally ancient creation.
Questão 126

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1
On a visit to Beirut during the terrible civil war of
 
1975-1976 a French journalist wrote regretfully of the gutted
 
downtown area that “it had once seemed to belong to the
 
Orient of Chateaubriand and Nerval”. He was right about the
5
place, of course, especially so far as a European was
 
concerned. The Orient was almost a European invention, and
 
had been since antiquity a place of romance, exotic beings,
 
haunting memories and landscapes, remarkable experiences.
 
Now it was disappearing; in a sense it had happened, its time
10
was over.
 
Americans will not feel quite the same about the
 
Orient, which for them is much more likely to be associated
 
very differently with the Far East (China and Japan, mainly).
 
Unlike the Americans, the French and the British — less so the
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Germans, Russians, Spanish, Portuguese, Italians, and Swiss —
 
have had a long tradition of what I shall be calling Orientalism,
 
a way of coming to terms with the Orient that is based on the
 
Orient’s special place in European Western experience. The
 
Orient is not only adjacent to Europe; it is also the place of
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Europe’s greatest and richest and oldest colonies, the source of
 
its civilizations and languages, its cultural contestant, and one
 
of its deepest and most recurring images of the Other. In
 
addition, the Orient has helped to define Europe (or the West)
 
as its contrasting image, idea, personality, experience. The
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Orient is an integral part of European material civilization and
 
culture. Orientalism expresses and represents that part
 
culturally and even ideologically as a mode of discourse with
 
supporting institutions, vocabulary, scholarship, imagery,
 
doctrines, even colonial bureaucracies and colonial styles. In
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contrast, the American understanding of the Orient will seem
 
considerably less dense.
 
To speak of Orientalism therefore is to speak mainly,
 
although not exclusively, of a British and French cultural
 
enterprise, a project whose dimensions take in such disparate
35
realms as the imagination itself, the whole of India and the
 
Levant, the spice trade, colonial armies and a long tradition of
 
colonial administrators, a formidable scholarly corpus,
 
innumerable Oriental “experts” and “hands”, an Oriental
 
professorate, many Eastern sects, philosophies, and wisdoms
40
domesticated for local European use — the list can be
 
extended more or less indefinitely. From the beginning of the
 
nineteenth century until the end of World War II, France and
 
Britain dominated the Orient and Orientalism; since World
 
War II America has dominated the Orient, and approaches it as
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France and Britain once did. Out of that closeness, whose
 
dynamic is enormously productive even if it always
 
demonstrates the comparatively greater strength of the
 
Occident (British, French, or American), comes the large body
 
of texts I call Orientalist.
E. W. Said. Orientalism. New York: Pantheon, 1978, p. 1-4 (adapted)
Decide whether the following statements are right or wrong according to text I.
The Portuguese as well as other European peoples share the exact same Orientalist tradition as the British.
Questão 127

Instituto Rio Branco 2016 - CESPE - Diplomata - Espanhol e Francês
1
On a visit to Beirut during the terrible civil war of
 
1975-1976 a French journalist wrote regretfully of the gutted
 
downtown area that “it had once seemed to belong to the